Friday, August 28, 2009

José por John (a/i)

Coisas incríveis acontecem com a gente, e às vezes a gente se impressiona e nem acredita que elas possam ser reais. O causo que devo contar agora, que receberia por título "José", por sugestão do Eliasibe, é algo que, acredito, não deve se repetir tão cedo (se é que vai se repetir) na minha vida (e não me admiraria se não acontecesse na do leitor, também).

José

Tanto na matemática quanto na filosofia, ou em qualquer outro curso em que se aprenda coisas relacionadas à lógica, seja ela matemática ou "real" (não sei como é que os filósofos denominam a sua), as pessoas têm o costume de querer provar coisas. Tanto é que isso aconteceu comigo: por todo o tempo em que fiz a disciplina de "matemática discreta" (disciplina essa cujo nome não tem, quase, nada a ver com o assunto real visto em sala de aula), aprendi a provar várias equações, teoremas, encontrar corolários desses teoremas; outros nem pude provar, visto que suas provas eram complicadas demais para sua apresentação em sala de aula para alunos de primeiro semestre.

Lembro que eram 5 tipos de prova naquela disciplina: prova direta, prova por contraposição, redução ao absurdo, prova por vacuidade e prova por trivialidade (tomara que eu não esteja esquecendo de nenhuma). Além dessas, nas aulas de "lógica para computação", no semestre posterior, o professor explicou sobre um tipo de prova sobre o qual eu ainda não tinha aprendido: "prova por argumentação". Achei interessante a idéia de a pessoa, mesmo na matemática, poder argumentar e mostrar, "por a mais b", que alguma coisa era verdade - ou não.

Pois bem. Através desse texto eu quero provar, através de uma tentativa de união da redução ao absurdo com a prova por argumentação, a "vacuidade" (sejamos sinceros, a frase - leia o texto e mais pra frente a conhecerá - nunca foi verdadeira!!!), isto é, a falsidade da famosa argumentação extremo-direitista (ou extremo-direitalha, como saberá o leitor ao término do texto) de que "a oportunidade é dada a todos; só que alguns não sabem aproveitá-la".

A história começa quando eu e o Eliasibe, que sempre demora demais pra comer (é, né Eliasibe?!?! HAHAHAHHA), saimos do RU, depois de a porta já fechada, e ficamos conversando sobre "Deus e todo mundo" (eu sempre ponho essa expressão em lugares errados... HAHAHAHAHA... aqui não é uma exceção, apesar de a gente, por acaso, ter falado um pouco de coisas relacionadas a Deus) parados, em pé, como [quase que] de costume (ultimamente a gente anda fazendo isso pouco). Comecei a falar sobre minha família e sobre o modo como ela se comporta. Discorri um pouco sobre como me incomodava que a minha família, que poderia ser tão próspera, fosse, pelo contrário, cheia de problemas que poderiam ser tão facilmente resolvidos através um pouco (e bem pouco!!!) a mais de estudo. Lembro que a última coisa que eu disse antes de ser abruptamente interrompido por um mendigo que andava na rua, carregando 5 sacos brancos - acho que de arroz, não sei -, foi "Eu só queria que a minha família pensasse um pouco. Só precisava pensar um pouco. [eu sei, eu tenho o costume de repetir o que eu digo quando conversando pessoalmente. É um cacoete que tenho e que uso quando quero enfatizar alguma coisa] Se ela pensasse um pouco, eu já estaria feliz. Por mais que, o que me deixa mais triste é que ela nem é mais Schmitz...".

Nesse momento, algo muito importante aconteceu: Eu fui [como já avisado antes] interrompido por um mendigo. Porém, esse, diferentemente do que eu esperava num primeiro momento, não era um mendigo qualquer. Ele era diferente. Ele era especial. Ele era, - conjecturaria eu - possivelmente, o mendigo mais culto de Porto Alegre.

Dentro de poucos minutos ele falou sobre as possíveis origens do meu nome e sobre as origens dos nomes dos judeus (aqueles que têm nome de árvore e animal, sabem?!?!), dos árabes, sobre a etimologia de algumas palavras, sobre a bíblia (assunto sobre o qual, pavorosamente, ele sabia muito mais do que eu), sobre a história da Alemanha, a guerra Franco-Prussiana, o IDH de alguns países, a qualidade de vida e o clima de alguns estados nordestinos e de suas respectivas capitais, o nome de alguns políticos do Pernambuco (empolgadamente perguntando se o Eliasibe conhecia os nomes), as inclinações políticas de ambos fascismo, nazismo, marxismo (interessante é que aqui ele se referia aos extremistas como "direitalha" e "esquerdalha"), entre muitos outros assuntos sobre os quais alguns eu nem tinha conhecimento. E o mais interessante de tudo: ele tinha só o ensino médio completo. Nada mais. Autodenimou-se "autodidata" - com toda a razão - e contou um pouco sobre a sua vida e sobre os motivos que o levaram a tornar-se morador de rua - faz um mês e meio que ele o é.

No meio desse turbilhão de assuntos diferentes (quase todos eles "humanos", inclinação científica, diria eu, preferida entre os que simplesmente não têm onde estudar), ele disse que tinha já até tentado concurso pra o Banrisul um tempo atrás, mas que não tinha conseguido porque tem muitos problemas com a informática. Solicitamos, tanto eu quando o Eliasibe, que ele procurasse algum curso gratuito, mas, apesar de ele ter dito que o faria, tenho minhas dúvidas de se isso realmente ocorrerá.

AAA... ele falou de suas duas irmãs e de seu sobrinho. Disse que morou com uma de suas irmãs já há um tempo, mas que não dava certo com ela: ela tinha muitos gatos dentro de casa e horários muito diferentes dos seus. Com isso, não deu pra sustentar um convívio muito bom e ele acabou sendo obrigado a sair de lá. Disse também, sobre isso, que a irmã dele tinha até já custeado uma vez um curso de informática pra ele, mas como só tinha um computador dentro de casa - que era, na maior parte do tempo, ocupado por um sobrinho dele que fazia Física na UFRGS e que agora largou o curso pra fazer Engenharia de Computação na PUC (sim, o sobrinho do mendigo estuda na PUC!!!) -, ele acabou não aprendendo muita coisa, sugerindo que estudar computação sem computador é como aprender xadrez sem ter um tabuleiro.


Nesse momento, chegamos à parte em que eu começo a minha argumentação:

O José tem muito conhecimento e pouco dinheiro (e uma cabeça muito "boa", haja vista que ele, com seus 52 anos de vida, guarde informações relativas a coisas sobre as quais muito provavelmente ele já tenha lido há muitíssimo tempo). Será que foi ele quem não soube aproveitar as oportunidades que lhe vieram?!?! Ou será que, na realidade, não lhe vieram oportunidades?!?! Será que ele foi tão bocaberta (sério, do jeito que ele conversou, com certeza ele não foi!!!) que ele não soube aproveitar nenhuminha oportunidade dada a ele!?!? Ou será que a verdade é que as oportunidades não lhe foram dadas!?!?

1) Se essas oportunidades não lhe foram dadas, o sistema é falho e não oportuniza a todos como a argumentação tenta sustentar.

Bom... mas, aí, as pessoas poderiam sugerir "aa... mas ele é um caso a parte; uma exceção!". A argumentação inicial das pessoas normalmente tenta vislumbrar a inexistência de exceções. Afinal, utiliza-se, comumente, a palavra "todos". Se x for a população inteira, todos não é x menos 1, nem x menos 2, nem x menos n, onde 0 <>

Terminando... estou certo de que o texto não foi formal o suficiente para desenvolver uma demonstração, e estou certo de que há uma certa (e significativa) probabilidade de que o meu texto tenha furos. Mas o importante é que, definitivamente, infelizmente, enquanto o discurso da direitalha imbecil (lembro ao leitor que eu não sou esquerdista. Assim, pode xingar à vontade... HAHAHAHAHA) permanecer esse (ele impera predominantemente em cursos como direito, administração, economia, etc), infelizmente, o nosso país, que tanto se gaba de tantas coisas boas que tem conseguido ultimamente (e que sempre teve), será um país triste, mesmo que, talvez, ainda, com seus raros mendigos letrados...

Quod erat demonstrandum

1 comment:

Lourdes said...

Acredito que se Deus colocou essa pessoa no caminho de vcs, é pq tem um proposito. O "José" não saiu sem tbm receber algo, tenha certeza q a SEMENTE foi plantada...
Deus abençoe vcs...